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Da Invernia Sulina
Por Administrador
Publicado em 14/06/2026 09:33
O Campo

Da Invernia Sulina

Na lonjura fria da campanha, quando o inverno se deita pesado sobre o pampa e a geada branca amanhece crestando o campo, o gaúcho não se entrega. O minuano vem de cortar a alma, atravessando poncho, pala e silêncio, assobiando nos cantos dos galpões como se fosse voz antiga dos ancestrais da fronteira. O chuvisqueiro fino, desses que não fazem barulho mas entram nos ossos, acompanha o clarear do dia enquanto o campeiro já vai de rédea na mão, reculutando as invernadas e apartando o gado no barro duro das canhadas.

Os ranchos fumaceiam cedo. A lenha estala nas lareiras e no fogão de chapa, e o cheiro do café passado se mistura ao do charque, da graxa de ovelha e da terra molhada. Nos galpões, a peonada à beira do fogo nas madrugadas compridas, palmeando um porongo, cevado forte como o espírito de quem nasceu pra enfrentar o rigor do sul. Cada brasa acesa parece guardar uma história antiga de tropeada, de enchente, de seca e de geada braba.

Lá fora, os mananciais dormem quietos sob o frio, os sumidores engolem a água escura das coxilhas e os banhadais respiram neblina baixa, como se o próprio campo tivesse alma. Ovelhas se amontoam buscando abrigo do vento cortante, enquanto os ovelheiros farejam o sereno e os cavalos troteiam firmes, criando vapor pelas ventas. Tudo vive, tudo resiste.

O homem da campanha aprende cedo que inverno não é castigo: é prova. É tempo de mostrar fibra, de medir coragem no cabo do relho e no aperto das mãos rachadas. Porque enquanto o minuano açoita os descampados, há sempre um gaúcho de pé, de olhar firme, mantendo acesa a chama da lida, da tradição e da querência.

E quando a noite cai grossa sobre o pampa, e o silêncio da fronteira só é quebrado pelo mugido distante do rebanho ou pelo tinir das esporas no chão duro dos galpões, o fogo segue vivo, como vive o povo sulino. Um povo moldado na geada, temperado no barro e criado à sombra dos galpões fumaceando cultura. 

 

...“Diazito” pequeno que se enverga na querência

Esfriando sonhos nas aragens dos descampados

Buscando abrigo nas canhadas e costas de mato

Retrato do inverno fronteiro sem cor, desbotado

 

Os “ranchitos” se aquecem pelo calor fogoneiro

As chaminés fumegam constante nuvens afora

Guardando a rusticidade sulina no lombo do frio

Em dia sombrio e feio tal qual aos de outrora...

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