Poncho
No lombo dessas invernadas onde o horizonte se estica feito tentos bem sovados, carrego sobre os ombros um pedaço da própria querência. Não é só pano grosso nem abrigo de inverno brabo — é pele de estrada, sombra de silêncio e memória encarnada no cheiro de fumaça e campo molhado. Já tomou sereno de madrugadas quietas, quando o mate passava de mão em mão e a conversa saía mansa, igual água de vertente escorrendo por entre pedra antiga.
Nas horas em que o dia ainda clareava de a pouco, acompanhando o resfolegar dos cavalos e o ranger dos arreios, ia comigo pelas recorridas. O vento minuano, cortante como verdade dita sem floreio, batia de frente, e mesmo assim seguíamos campo afora, enquanto as franjas dançavam no ar como se soubessem o rumo antes do cavaleiro. Chuva grossa já desabou em cima de nós, dessas que fazem a terra criar cheiro de eternidade, e ali ficou ele, pesado de água e lembrança, sem nunca arredar fibra.
Tem coisa que o tempo não leva embora; apenas encarde com respeito. Assim também são certos companheiros de lida. Guardam nas dobras as geadas das manhãs mais duras, o calor cansado das tardinhas compridas e os segredos que homem nenhum entrega nem pra própria sombra. Há marcas que não aparecem pros olhos dos outros, ficam escondidas como rastro de tropa em campo batido pelo vento.
E quando a noite desce sobre as canhadas, escurecendo devagarzinho o mundo, parece que ele ainda cochicha histórias antigas no ouvido da gente. Histórias de estrada sem fim, de saudade guardada em silêncio e de um tempo em que o homem valia mais pela firmeza do olhar do que pelo tamanho das palavras.
Joaão Luís de Almeida