Quando o Rio Grande se Levantou
Cá pras bandas do Sul,
quando o campo era mais largo
e o horizonte não tinha porteira,
um silêncio diferente
se deitou sobre a campanha...
Não era silêncio de paz,
nem de sesta de peão cansado.
Era o silêncio comprido
de quem junta coragem
antes de soltar o grito.
O Rio Grande andava sentindo
o peso de imposto e injustiça,
o couro apertado demais
num povo acostumado
a viver de rédea solta.
E foi então que o vento mudou...
Dezoito de setembro de trinta e cinco,
a história bateu casco
nas estradas do pampa.
Homens de bombacha,
poncho, lenço e coragem,
montaram seus cavalos
e foram pra guerra.
Não levavam luxo.
Levavam o que tinham:
um cavalo ligeiro,
uma adaga na cintura,
um pala sobre os ombros
e um coração
que não sabia se acovardar.
Bento levantou a voz,
e a campanha respondeu.
Farroupilha!
E o grito correu pelos campos
mais ligeiro que o minuano.
Correu por coxilhas,
atravessou sangas,
bateu nas porteiras,
acordou ranchos
e fez estremecer o chão.
Era o homem do campo
defendendo seu chão,
sua honra,
seu direito
de ser ouvido.
Vieram batalhas,
vieram mortes,
vieram noites compridas
sem saber se o dia seguinte
traria volta ou despedida.
Mas quem conhece a guerra
sabe:
não existe vitória
sem cicatriz.
E o Rio Grande sangrou.
Sangrou nas barrancas,
nos campos,
nas estradas poeirentas,
no peito de mãe
que esperava o filho
voltar da peleia.
E enquanto uns lutavam
com espada e lança,
outros sustentavam a vida
na lida do campo.
Porque revolução também se faz
com o braço que planta,
com a mão que ordenha,
com o cavalo encilhado
antes do sol nascer.
E foi assim...
Dez anos de luta
não cabem num livro.
Cabem na memória.
Cabem no silêncio
de uma velha estância.
Cabem no olhar
de quem contempla uma coxilha
e ainda escuta, ao longe,
o tropel daqueles homens.
Em mil oitocentos e quarenta e cinco,
a paz chegou.
Mas paz não apaga guerra.
E guerra não apaga memória.
A Revolução Farroupilha ficou...
Ficou no lenço vermelho,
na bombacha,
no pala,
no mate cevado junto ao fogo,
no cavalo que corta o campo
com o vento batendo na crina.
Ficou na alma
desse povo campeiro.
Porque o tempo passa...
A tropa muda de estrada,
o cavalo envelhece,
a marca se apaga do couro...
Mas aquilo que um povo viveu
não morre.
Fica guardado
feito brasa de fogo de chão:
parece apagado...
mas basta um sopro
pra voltar a arder.
E quando o minuano assobia
por entre as macegas,
quando a noite se estende
sobre o pampa,
parece que ainda se escuta
lá no fundo da campanha...
o tropel dos farrapos.
E uma voz antiga
gritando pro vento:
“Este chão tem dono,
tem história
e tem memória!”
E enquanto houver campo,
cavalo,
mate e liberdade...
o Rio Grande
não esquecerá.