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Da Minha Querência
Da Minha Querência
Por Administrador
Publicado em 14/01/2026 18:35
O Campo

Da Minha Querência

Há lembranças que a alma não desata. São tentos firmes, trançados no tempo em que eu campereava enforquilhado no lombo dos petiços, sentindo o vento bater na cara e o cheiro da manhã se misturar com o das macegas molhadas. O campo era meu recreio e meu colégio. Aprendi a ler o mundo nos sinais da natureza e a escrever meus sonhos com poeira de estrada e suor de guri campeiro.
Lá na querência, o rancho simples se enchia de vida. O fogo, símbolo galponeiro, em cada estalo parecia contar um causo antigo. Foi ali que aprendi com os mais velhos que o respeito e a palavra valem mais que ouro. Falavam pouco, mas cada dito carregava um mundo dentro. Era filosofia de galpão: lições que não vinham dos livros, mas do olhar firme, do mate alcançado e do silêncio ensinador, desses que educam mais que mil discursos.
As leiteiras pela mangueira; na lembrança, o leite espumava morno, cheirando a infância. Antes do sol despontar, era hora de apojar os terneiros na mangueira. Na lida do rebanho, com uma piola laçava cordeiros ligeiros, acompanhava os campeiros nas reculutas, ajudava no alambrado, juntava gravetos para o fogo. E, na tardinha, o açude chamava com seu espelho d’água quieto. Lá a gente se banhava de corpo e alma, gargalhando entre amigos enquanto o céu se tingia de cores que nem pintor dava conta de copiar.
Às vezes parecia que o próprio campo sorria vendo a gente crescer livre, com o barro nos pés e o coração leve. Era um tempo de simplicidade bonita, onde o luxo era ver o sol se deitar no horizonte e o galpão se acender de estrelas.
Hoje, quando volto àqueles pagos, vejo que o tempo passou, mas a alma ficou por lá. No galpão ainda ecoa o riso de guri, e no potreiro o vento traz de volta vozes antigas, como se o campo mesmo me chamasse pelo nome.

...Minha querência é feita de tempo e ternura,
de chão batido e céu de cetim,
riqueza maior não há neste mundo:
voltar pra esse campo é voltar pra mim.


No galpão, o cheiro do couro se espalha,
mistura de tempo, suor e razão,
e as mãos, marcadas da lida antiga,
guardam histórias de um velho peão...

 

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